Dividir para dobrar: o que aprendi levando duas soluções a um hackathon
Três semanas antes do haCARthon começar, eu devia estar com a cabeça enterrada em trechos do Código Florestal, validando queries contra bases geo de municípios brasileiros. Em vez disso, estava numa chamada de vídeo tentando convencer minha equipe de quatro pessoas a se dividir em duas.
Não foi uma decisão impulsiva. Foi a conclusão de um mês inteiro mergulhado num desafio que eu não esperava gostar tanto.
R$15 mil foi o gancho que faltava
Nunca fui muito entusiasta de hackathons. Mas dessa vez o gancho foi direto: minha companheira, UX/UI Designer, recebeu um e-mail da PanicLobster — organizadora do evento — avisando que em um mês aconteceria o haCARthon, com premiação de R$15.000 para cada uma das cinco equipes vencedoras. O incentivo despertou meu interesse o suficiente para eu ir atrás dos desafios propostos.
Uma amiga em comum, Administradora Pública que já tinha participado de outros hackathons com ela, soube do evento e trouxe mais uma pessoa: um desenvolvedor frontend. Assim, formamos o grupo — eu, minha companheira, a amiga e o frontend — sem saber ainda que, três semanas depois, viraríamos duas duplas.
Ninguém do grupo entendia de CAR
Com só um mês até o evento, o primeiro problema não era técnico — era de alinhamento. Cadastro Ambiental Rural, Código Florestal, bases de referência geoespaciais oficiais: eu mal sabia decifrar as siglas, e o resto do grupo estava no mesmo barco. Resolvi compilar tudo o que consegui reunir num único lugar, montei uma aplicação Docusaurus com esse material e coloquei no ar através do meu homelab , para que todo mundo pudesse debater os desafios partindo do mesmo contexto.
Funcionou. Depois de várias reuniões tarde da noite para desenhar fluxos e personas, já na primeira semana tínhamos os papéis definidos: a UX/UI e o frontend transformariam os fluxos em telas e protótipos, a Administradora Pública cuidaria do discurso do pitch, e sobrou para mim fundamentar a viabilidade técnica da solução.
Foi assim que nasceu a Carla — nome escolhido de brincadeira, mas que depois fez sentido demais para trocar. A ideia era simples de explicar e difícil de implementar na prática: uma interface de chat guiada, própria e open source, para o cidadão declarar e retificar o CAR sem depender de intermediário pago. Em vez de pedir que o produtor rural desenhe o polígono do imóvel do zero, a Carla sugere uma demarcação com base no que ele já informou, destaca automaticamente Reserva Legal e APPs, e nunca pergunta de novo um dado que já recebeu — fecha cada etapa com um resumo, não campo a campo. Do outro lado, um portal para o analista ambiental, com fila priorizada e dossiê de apoio.
A documentação foi sendo atualizada conforme as ideias amadureciam, e todos sabíamos que o projeto ainda mudaria nos três dias do evento — ali teríamos acesso a mentores e a definições mais concretas.
Por que dobrar a aposta
Como sobrou para mim a viabilidade técnica, entrei num mundo totalmente novo: leis do Código Florestal, bases de dados georreferenciadas, QGIS, técnicas de mapeamento geo, revisão de álgebra linear aplicada a cálculo vetorial, uso de drones e imagens de satélite para mapear território.
Eu estava gostando demais do que estava aprendendo, e ainda tínhamos três semanas até o evento. Levei para o grupo uma ideia fora do plano: atacar também o Desafio 2 — o mais técnico dos três, justamente o que eu imaginava que menos equipes teriam disposição de encarar.
Só que tinha uma regra que complicava tudo: cada equipe só podia submeter para um desafio. Se quiséssemos entregar dois projetos, precisaríamos virar duas equipes independentes — e dividir um grupo de quatro pessoas em duas duplas.
Decidimos correr o risco. Montei um segundo documento de referência, nos mesmos moldes do primeiro, para embasar essa segunda frente. Cheguei a cogitar chamar a solução de “Carlos”, mas ficaria parecido demais com a Carla — batizamos de GeoHub Brasil. A proposta: ingerir e normalizar oito bases geoespaciais federais (SNIF, ANA, ICMBio, FUNAI, IBAMA, INCRA, IBGE, INPE) num único lugar, e rodar validações automáticas — sobreposição com terra indígena, unidade de conservação, embargo do IBAMA, cálculo de APP e Reserva Legal — que hoje o analista precisa buscar manualmente em oito sistemas diferentes. A entrega é um parecer geoespacial preliminar em menos de 60 segundos, não mais um cadastro pronto: quem usa é o analista e o gestor de dados, não o produtor rural.
Duas entregas, três dias, quatro pessoas
O haCARthon começava às 14h de uma sexta-feira, e chegamos ansiosos. Foram três dias intensos, com emoções à flor da pele — boa parte do tempo discutindo decisões técnicas como quatro pessoas que, na prática, eram leigas no assunto há apenas um mês. A mentoria foi o que mais nos deu norte nesses momentos: sozinhos, girávamos em falso; com um mentor especialista, as discussões viravam decisão.
Separamos as duplas como o trabalho das últimas semanas já vinha sugerindo: eu e a Administradora Pública seguimos com o GeoHub Brasil, a UX/UI e o frontend continuaram com a Carla. Cada dupla, sozinha, precisava entregar o que antes seria trabalho de quatro — incluindo os dois vídeos por projeto: protótipo e pitch. Dividir a equipe multiplicou nossas chances de boas colocações, mas também multiplicou por dois o trabalho de cada dupla nos mesmos três dias.
A ferramenta chinesa que salvou a madrugada
No fim do segundo dia, ainda faltando gravar o vídeo de pitch do GeoHub Brasil, esbarrei no GitHub em uma ferramenta chamada MoneyPrinterTurbo , criada por harry0703 : uma lib chinesa que monta vídeos a partir de um roteiro, combinando clipes curtos de bancos de vídeo. Cloniei o projeto, rodei localmente para avaliar, e vi que dava para usar fora do caso de uso original — exatamente o que eu precisava para transformar o roteiro do pitch em vídeo sem depender de edição manual.
Usando a ferramenta de um jeito não convencional, esbarrei em alguns bugs. Abri uma issue, que acabou aceita como correção no projeto . Passei a madrugada do último dia adaptando um projeto open source chinês para o meu contexto específico, e no fim consegui gerar o vídeo de pitch do GeoHub Brasil com a ferramenta.
O que sobrou depois do ranking
Entregamos os dois projetos faltando poucos minutos para o fim do haCARthon — documentação atualizada, tudo publicado, esperando avaliação. Dias depois saiu o resultado: entre mais de 230 grupos inscritos, a Carla ficou em 130º lugar, o GeoHub Brasil em 65º. Longe do pódio.
Mesmo assim, valeu o risco. Sobrou um portfólio de duas soluções que hoje mostro com orgulho, um punhado de tecnologia nova no currículo, bastante coisa da faculdade relembrada sob pressão, e gente nova que conheci no processo. A colocação foi o critério que a organização usou para nos avaliar — não foi o único que usei para avaliar se valeu a pena.
Documentação da Carla: https://guirondon.dev/portfolios/carla-hacarthon
Documentação do GeoHub Brasil: https://guirondon.dev/portfolios/geohub-hacarthon
Protótipo da Carla: https://www.youtube.com/watch?v=pFvPlxF-FXs
Pitch da Carla: https://www.youtube.com/watch?v=JHjPdq5rZw8
Protótipo do GeoHub Brasil: https://www.youtube.com/watch?v=PQTDf4yG5Bw
Pitch do GeoHub Brasil: https://www.youtube.com/watch?v=OK5n_thwBoU
Se tem uma coisa que ficou depois de fechar o laptop naquela madrugada: dividir a equipe em dois não foi sobre duplicar as chances de ganhar. Foi sobre aceitar que dava para aprender o dobro no mesmo prazo, mesmo sabendo que cada dupla teria a metade das mãos para dar conta do trabalho.